Parte I · Formação

Jules Chéret antes dos grandes cartazes

Os anos de formação entre Paris e Londres (1836–1866)

Reconstrução editorial de um ateliê litográfico, com trabalhadores, prensas e pedras de impressão.Ampliar
Reconstrução editorial de um ateliê litográfico parisiense em meados do século XIX. A cena sintetiza o ambiente técnico em que se formaram muitos dos impressores e desenhistas da época, entre eles Jules Chéret.

Reconstrução editorial de um ateliê litográfico parisiense em meados do século XIX. A cena sintetiza o ambiente técnico em que se formaram muitos dos impressores e desenhistas da época, entre eles Jules Chéret.

Reconstrução editorial de um ateliê litográfico, com trabalhadores, prensas e pedras de impressão.

Reconstrução editorial de um ateliê litográfico parisiense em meados do século XIX. A cena sintetiza o ambiente técnico em que se formaram muitos dos impressores e desenhistas da época, entre eles Jules Chéret.

Reconstrução visual · The Warehouse · Éditions d'Art

ABERTURA

Antes que seus cartazes passassem a ocupar os muros de Paris e seu nome fosse associado à história do cartaz moderno, Jules Chéret foi aprendiz, desenhista, operário litográfico e ilustrador comercial.

Nascido em Paris em 1836, filho de um tipógrafo, sua formação ocorreu longe dos salões e academias normalmente associados à história da arte. Ela aconteceu nas oficinas de impressão, entre pedras litográficas, desenhos de letras, imagens de devoção, anúncios comerciais e longas horas de observação.

Ao longo das décadas de 1840 e 1850, Chéret transitou por diferentes espaços de aprendizagem. Trabalhou para impressores, frequentou cursos de desenho, visitou museus e ampliou progressivamente seu repertório visual. Mais tarde, a experiência londrina o aproximaria da publicidade, da indústria gráfica e das possibilidades da impressão em cores em grande escala.

O período abordado neste artigo termina em 1866. Nesse momento, após anos de trabalho entre França e Inglaterra, Chéret obtém o brevet d'imprimeur e instala sua própria oficina litográfica em Paris com apoio financeiro do perfumista Eugène Rimmel.

Os cartazes que o tornariam célebre ainda estavam por vir. Mas os elementos fundamentais dessa trajetória já estavam reunidos: formação técnica, experiência profissional, repertório visual e domínio crescente dos processos de impressão.

Formação

Origem familiar

Jules Chéret nasce em Paris em 1836, em uma família de tipógrafos. O ofício paterno define o ambiente material da infância: composição de caracteres, provas de impressão, encomendas comerciais miúdas. É nesse contexto, e não em um meio artístico, que se dá o primeiro contato com a cultura gráfica.

Os recursos da família são limitados. Uma formação acadêmica regular está fora de alcance. A aprendizagem é, antes de tudo, técnica. Forma-se ali o operário gráfico; o desenhista viria depois.

Aprendizagem

Aos treze anos, Chéret entra como aprendiz em uma oficina litográfica parisiense. A documentação disponível não descreve em detalhe as condições desse aprendizado, mas as oficinas da época costumavam combinar instrução técnica e trabalho prático. Entre as tarefas normalmente atribuídas aos aprendizes estavam a preparação das pedras litográficas, o manuseio de tintas e a observação do funcionamento das prensas.

Nesse período, aprende o desenho de letras, a estrutura de uma composição impressa e o vocabulário visual da produção comercial. A aprendizagem é, sobretudo, técnica: nela se forma o operário gráfico antes do desenhista.

Cartaz tipográfico do Théâtre de l’Ambigu-Comique, com o título Louis XVI et Marie-Antoinette e linhas de texto em diferentes escalas.Ampliar
Figura 1 — Cartaz tipográfico comercial. Antes da consolidação do cartaz ilustrado, a comunicação urbana recorria amplamente à tipografia.

Figura 1 — Cartaz tipográfico comercial. Antes da consolidação do cartaz ilustrado, a comunicação urbana recorria amplamente à tipografia.

Cartaz tipográfico do Théâtre de l’Ambigu-Comique, com o título Louis XVI et Marie-Antoinette e linhas de texto em diferentes escalas.

Figura 1 — Cartaz tipográfico comercial. Antes da consolidação do cartaz ilustrado, a comunicação urbana recorria amplamente à tipografia.

séc. XIX · — · Acervo documental

Bouasse-Lebel

Em torno de 1854, Chéret trabalha como desenhista para a Maison Bouasse-Lebel, oficina especializada em imagens religiosas de pequeno formato: santinhos, lembranças de primeira comunhão, devocionários. Trata-se de uma produção seriada e padronizada, que exige domínio de um repertório gráfico preciso: figuras femininas, drapeados, motivos vegetais e molduras ornamentais.

Lecoq de Boisbaudran

Em paralelo ao trabalho de oficina, Chéret frequenta cursos de desenho conduzidos por Horace Lecoq de Boisbaudran, na École de la Petite-Rue-de-Seine. O método de Lecoq, voltado ao treino da memória visual, propunha que o desenhista fixasse mentalmente a estrutura essencial de uma figura antes de transferi-la ao papel.

Não há, neste momento, qualquer indício de que esse ensino tenha tido efeito imediato sobre a produção de Chéret. Sua importância só pode ser considerada em retrospecto, a partir de soluções compositivas que aparecerão apenas muitos anos depois.

Museus e formação visual

Chéret frequenta museus parisienses, em particular o Louvre. As referências disponíveis indicam interesse pela pintura veneziana do século XVIII e pelo rococó francês — Watteau, Fragonard, Boucher. Esse repertório era pouco valorizado pela crítica acadêmica do Segundo Império, mas estava amplamente acessível nas coleções públicas.

A relação entre essa cultura visual e a obra futura de Chéret deve ser tratada com cautela. A presença de figuras femininas leves, paletas claras e composições dinâmicas em cartazes maduros sugere afinidade com esse repertório, mas não autoriza estabelecer uma linha direta de influência. O que se documenta com segurança, neste período, é a frequentação — não a transformação que dela teria resultado.

Cartão devocional com duas figuras religiosas, ornamentos vegetais e inscrição Maison Bouasse-Lebel.Ampliar
Cartão de devoção produzido pela Maison Bouasse-Lebel, editora parisiense especializada em imagens religiosas impressas. Esse tipo de material fazia parte do universo gráfico e comercial dos primeiros anos de formação de Jules Chéret.

Cartão de devoção produzido pela Maison Bouasse-Lebel, editora parisiense especializada em imagens religiosas impressas. Esse tipo de material fazia parte do universo gráfico e comercial dos primeiros anos de formação de Jules Chéret.

Cartão devocional com duas figuras religiosas, ornamentos vegetais e inscrição Maison Bouasse-Lebel.

Cartão de devoção produzido pela Maison Bouasse-Lebel, editora parisiense especializada em imagens religiosas impressas. Esse tipo de material fazia parte do universo gráfico e comercial dos primeiros anos de formação de Jules Chéret.

séc. XIX · Maison Bouasse-Lebel · Acervo documental

A aprendizagem é, sobretudo, técnica: nela se forma o operário gráfico antes do desenhista.

Anos formativos (1836–1866)

  1. 1836

    Nascimento em Paris

    Nasce em Paris, filho de um tipógrafo. O ambiente familiar o aproxima desde cedo do universo da impressão.

  2. c. 1849

    Início da aprendizagem

    Ingressa como aprendiz em uma oficina litográfica parisiense, onde aprende desenho de letras, preparação das pedras e os processos básicos da impressão.

  3. Década de 1850

    Formação artística

    Trabalha para a Maison Bouasse-Lebel, frequenta os cursos de Horace Lecoq de Boisbaudran e amplia sua formação visual em museus parisienses.

  4. 1859–1866

    Período londrino

    Estabelece-se em Londres, trabalha em oficinas litográficas e desenvolve uma relação profissional com Eugène Rimmel.

  5. 1866

    Retorno a Paris

    Com apoio financeiro de Eugène Rimmel, obtém o brevet d'imprimeur e instala sua primeira oficina litográfica independente.

Londres

Primeira viagem a Londres (1854)

Em 1854, ainda jovem, Chéret faz uma primeira viagem a Londres. A estadia é curta e motivada por razões práticas: a cidade oferecia salários mais altos no setor gráfico e oficinas equipadas com tecnologias de impressão pouco difundidas na França. A viagem não tem caráter de formação artística.

Orphée aux enfers

De volta a Paris, Chéret realiza, entre os trabalhos comerciais desse período, uma peça associada à opereta Orphée aux enfers, de Jacques Offenbach. A execução é modesta e os exemplares são raros. A peça interessa menos como obra autônoma do que como documento de um problema técnico em curso: o da articulação entre imagem e tipografia em um único suporte.

As diferentes peças associadas a Orphée aux enfers permitem observar um problema central do cartaz do século XIX: como fazer imagem e texto deixarem de ser elementos separados e passarem a atuar como uma única composição visual.

Composição ilustrada de Orphée aux enfers, com personagens em uma paisagem rochosa, sem título tipográfico destacado.Ampliar
Figura 1 — Composição centrada na imagem. A narrativa visual é conduzida predominantemente pela ilustração.

Figura 1 — Composição centrada na imagem. A narrativa visual é conduzida predominantemente pela ilustração.

Composição ilustrada de Orphée aux enfers, com personagens em uma paisagem rochosa, sem título tipográfico destacado.

Figura 1 — Composição centrada na imagem. A narrativa visual é conduzida predominantemente pela ilustração.

séc. XIX · Jules Chéret · BnF / Gallica

Orphée aux enfers: ilustração entre o título superior e a inscrição Bouffes Parisiens na parte inferior.Ampliar
Figura 2 — Composição com integração parcial da tipografia. As informações do espetáculo passam a participar da organização visual.

Figura 2 — Composição com integração parcial da tipografia. As informações do espetáculo passam a participar da organização visual.

Orphée aux enfers: ilustração entre o título superior e a inscrição Bouffes Parisiens na parte inferior.

Figura 2 — Composição com integração parcial da tipografia. As informações do espetáculo passam a participar da organização visual.

séc. XIX · Jules Chéret · BnF / Gallica

Cartaz Orphée aux Enfers do Théâtre de la Gaîté, com personagens, grandes letras e margens da reprodução documental.Ampliar
Figura 3 — Imagem, tipografia e informação teatral articuladas em uma única composição impressa.

Figura 3 — Imagem, tipografia e informação teatral articuladas em uma única composição impressa.

Cartaz Orphée aux Enfers do Théâtre de la Gaîté, com personagens, grandes letras e margens da reprodução documental.

Figura 3 — Imagem, tipografia e informação teatral articuladas em uma única composição impressa.

séc. XIX · Jules Chéret · BnF / Gallica

Instalação em Londres

Por volta de 1859, Chéret retorna a Londres e ali se fixa por aproximadamente sete anos. Trabalha em oficinas litográficas inglesas, em um ambiente caracterizado pela escala industrial da produção gráfica e por uma cultura publicitária mais desenvolvida do que a francesa do mesmo período.

Trabalho comercial

A maior parte da atividade de Chéret em Londres está ligada à produção gráfica destinada ao mercado: rótulos, embalagens, capas de partitura, anúncios de magazines, peças de music-hall e impressos para perfumarias e farmácias.

Eugène Rimmel

Durante o período londrino, Chéret entra em contato com Eugène Rimmel, perfumista de origem francesa instalado em Londres. Rimmel já operava uma empresa de perfumaria em expansão, com forte investimento em impressos publicitários — embalagens, calendários ilustrados, programas perfumados de teatro, panfletos.

A relação entre Chéret e Rimmel se desenvolve no terreno do trabalho comercial regular. Rimmel torna-se um cliente recorrente e um parceiro importante para a continuidade da atividade da oficina.

O cartaz moderno não nasce apenas do desenho.

Nasce também das oficinas, das prensas e das condições materiais que tornaram sua produção possível.

O retorno

Financiamento

Em 1866, Chéret retorna a Paris. O retorno é viabilizado pelo apoio financeiro de Eugène Rimmel, que fornece os recursos necessários para instalar uma oficina litográfica equipada com prensas de grande formato importadas da Inglaterra.

Oficina própria

A oficina é montada em Paris segundo padrões técnicos observados por Chéret durante o período inglês. O elemento mais importante dessa estrutura são as prensas de grande formato, capazes de produzir tiragens compatíveis com a crescente demanda da publicidade urbana.

Fotografia de uma rua de paralelepípedos com edifícios e uma grande janela em arco, identificada na publicação como Rue de la Tour-des-Dames.Ampliar
Vista da Rue de la Tour-des-Dames em 1919. Embora posterior à presença de Chéret, a fotografia permite visualizar o endereço associado à sua primeira oficina independente em Paris.

Vista da Rue de la Tour-des-Dames em 1919. Embora posterior à presença de Chéret, a fotografia permite visualizar o endereço associado à sua primeira oficina independente em Paris.

Fotografia de uma rua de paralelepípedos com edifícios e uma grande janela em arco, identificada na publicação como Rue de la Tour-des-Dames.

Vista da Rue de la Tour-des-Dames em 1919. Embora posterior à presença de Chéret, a fotografia permite visualizar o endereço associado à sua primeira oficina independente em Paris.

1919 · Charles Lansiaux · Bibliothèque historique de la Ville de Paris

Brevet d'imprimeur (1866)

No mesmo ano, Chéret obtém o brevet d'imprimeur, autorização oficial exigida pela legislação francesa para o exercício da atividade de impressor. A obtenção do brevet marca uma mudança de posição dentro do sistema gráfico: Chéret deixa de ser desenhista contratado por terceiros e passa a controlar diretamente a impressão.

A mudança é, sobretudo, profissional. Chéret deixa de depender exclusivamente de oficinas de terceiros e passa a controlar a impressão de seus próprios trabalhos. Transforma o desenhista em impressor e o trabalhador gráfico em empreendedor gráfico — condição material que, em poucos anos, tornaria viável a produção em série dos cartazes pelos quais ele viria a ser lembrado.

MARCO CRONOLÓGICO

RETORNO A PARIS

Em 1866, Jules Chéret retornava a Paris trazendo a experiência adquirida na Inglaterra, o apoio financeiro de Eugène Rimmel, uma oficina equipada com prensas inglesas e o brevet d'imprimeur que lhe permitia atuar como impressor.

Ainda não era o artista celebrado pelos grandes cartazes que marcariam a paisagem parisiense nas décadas seguintes. Mas já reunia as condições materiais, técnicas e profissionais que tornariam essa trajetória possível. A história do Chéret associado aos teatros, aos cafés-concertos e à consolidação do cartaz moderno começa a partir desse ponto.

Acervos e catálogos

Acervos

  • Bibliothèque nationale de France (Gallica)
  • Musée d'Orsay
  • Musée des Arts Décoratifs
  • Bodleian Libraries

Catálogos e publicações

  • Jules Chéret et l'affiche artistique
  • Les Maîtres de l'Affiche
  • Dictionnaire des imprimeurs-lithographes du XIXe siècle

Documentação consultada

  • Registros de impressoras e endereços comerciais
  • Anúncios e impressos comerciais de Eugène Rimmel
  • Cartazes e documentos preservados na Bibliothèque nationale de France

Fontes e referências

Documentação consultada para este ensaio

  1. Museu

    Musée d'Orsay. Jules Chéret et l'affiche artistique. Texto de Ségolène Le Men.

    Paris, França
  2. Museu

    Musée des Arts Décoratifs. Jules Chéret et l'affiche artistique (catálogo e documentação da exposição de 2010).

    Paris, França
  3. Acervo

    Bibliothèque nationale de France (BnF). Département des Estampes et de la Photographie.

    Paris, França
  4. Base documental

    Dictionnaire des imprimeurs-lithographes du XIXe siècle (École nationale des chartes).

    França
  5. Acervo

    Bodleian Libraries. Coleção de impressos promocionais de Eugène Rimmel.

    Oxford, Reino Unido